O Intérprete

Lisboa - 110

Lembro-me que era um sábado, dia 22 de Setembro de 1973, quando o meu corpo foi encontrado pouco depois das sete da manhã a flutuar perto do Cais da Rocha do Conde Óbidos, em Lisboa. Entre a quilha branca de um barco e o cais de pedra escura, um marinheiro sonolento que atirava a beata do cigarro à água descobriu-me e deu o alarme. Aparentemente, depois das carnavalescas e sempre muito coloridas manobras autopsiais, foi concluído que estava na água há mais de 48 horas. Que feito, não? Se me tivessem perguntado eu teria podido dizer isso mesmo sem que me retalhassem como a um boi no matadouro. Quer dizer, tantos anos de cuidados com a aparência para depois vir um necrófago qualquer abrir o que levei uma vida inteira a fechar: o meu ser. Mas voltando ao exacto momento da descoberta de mim pelos outros, ver-me ali assim flutuando, dando pancadinhas cadenciadas contra o cais, estava já a dar-me sono. Sim, sono. Passei tanto tempo a olhar-me sem vida que me fui aborrecendo e comecei a fechar as pálpebras. Ainda por cima um céu limpo de nuvens e um sol que brilhava quase que me aqueciam os ossos, apenas isso ainda pudesse ser. Resumindo, se aquele marinheiro não me tivesse descoberto e posto aos gritos juro que tinha passado pelas brasas ali com o Tejo aos meus pés! Mas não. Deu-lhe a verborreia e em poucos minutos a zona estava com os mirones costumeiros: marinheiros ainda embriagados que regressavam aos barcos e outros com ar de sono saídos dos beliches, estivadores e operários, e uma ou duas prostitutas que naquela madrugada ainda não tinham sido capazes de fazer o caminho de casa e se encostavam em pose teatral às redes do lado de fora da zona portuária. Ah! E pouco tardou, claro, para que chegassem ali para me observar, como se eu fosse macaco amestrado, dois dos cães do Marcelo: fatinho de duas peças, escuro e rasca, aquele ar sisudo que põe quem procura manter afastados os outros com receio que estes descubram a nulidade que de facto são, e bloco e caneta na mão de um deles. E pronto. Menos de trinta minutos depois estava ali a comandita toda. E o que diziam! Nunca ouvi tanta baboseira. Ali a olhar para mim mesmo reforcei uma vez mais a convicção de que não vivi de todo entre os meus pares! Aliás, de que não vivia entre pares, porque naquela altura ainda me era difícil admitir que tinha passado a ser comida de rodovalhos ou ruivos. Num extremo, dois tipos mantinham uma conversa em voz baixa tendo como tese que eu teria sido assassinado. E, claro, como tinha sido ali dentro dos limites do Porto, e dado eu aparentar estar “bem vestido”, só poderia ser má rés e tinha tido o que tinha feito por merecer. Nem lhes roçou o raciocínio algo a que se chama movimento de marés! Entre traficante, espião, comunista, expatriado, ricaço e maricas, eu fui de quase tudo num espaço de pouco mais de meia hora. Até houve um que sussurrou que eu deveria ser um pide que teve a paga. Filho da puta! Gritei-lhes “Sou intérprete, seus montes de esterco!”, mas fui ignorado, porque ninguém me ouvia. A minha voz não tinha voz. E pensei cá para mim “Ora cá está. Na morte mais do mesmo que tive em vida: sem voz”. Pois é, mais de 40 anos de trabalho como intérprete junto de embaixadas, secções consulares, representações estrangeiras de visita a Portugal, turistas endinheirados, espiões circunspectos em Lisboa aquando da Segunda Grande Guerra na Europa – aquele sítio que fica para lá dos Pirenéus –, nobreza do velho mundo, domadores de leões, montes de merda em geral e os grandessíssimos montes de merda do governo do Marcelo em particular e, de facto, retrospectivamente, dei-me conta que de entre tudo o que disse pouco foi de minha criação. Limitei-me na vida a servir de veículo entre pessoas que não se compreendiam, a ser uma via rápida entre dois pontos e nunca um dos lugares de chegada. E tantas vezes desejei ser lugar. Mas fiz alguma coisa por isso? Bom, agora ali estava, encharcado e com um belo fato todo estragado. Raio de vida! Seria de esperar que com quase 75 anos de idade pudesse ter conseguido encontrar um fim com um pouco mais de estilo! Aparentemente não aprendi nada. E agora ali deambulavam todas aquelas sanguessugas remelentas na manhã de sábado, a tentar interpretar o intérprete! Apeteceu-me rir às gargalhadas e acender uma cigarrilha, mas até essa merda tinha ficado no bolso interior do casaco e deviam estar agora feitas em papas e lodo. Perdi a vontade de rir numa fracção de segundo. E para cúmulo recordei-me nesse mesmo instante que nem sequer tinha tido tempo de fechar à chave a porta do Mercedes novinho em folha que estacionei em Alfama! Puta que me pariu!

Continua(rá)

 

Fotografia: Lisboa, 2014 © Celso Rosa

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Onde tudo foi sendo perfeito

Quiçama, Reserva Natural - 04

Voltar a partir.
Regressar ao silêncio,
Aos espaços amplos,
Invisíveis,
Transparentes.
Regressar à felicidade,
Onde a vida é feita de minúsculas fracções
De um tempo imperceptível.
Deixar de vez o negro da noite
E abraçar o azul cobalto
Do céu das manhãs frias do norte.
Regressar ao tempo de paz,
Abandonar a guerra
Pela última vez
Sem olhar para trás.
Apagar toda a dor de espírito
Da noite perpétua.
Regressar ao silêncio,
A casa,
Aos filhos,
Aos pais,
Aos teus braços,
Às transparências,
Ao outro lado das existências,
Ou simplesmente regressar
Para que seja possível voltar a partir.
Ainda que os lugares fiquem para sempre dentro de nós.

Celso Rosa (publicado na Antologia de Poesia Contemporânea “Entre o Sono e o Sonho”, 2015, Volume VI, Tomo I, da Chiado Editora)

Fotografia: Angola, Agosto de 2007 © Celso Rosa

Vermelho é o sangue, azul o que ficou por dizer

Travelling in Czech Republic 17

Vermelho. Invento dias em sossego ouvindo o simples ranger do soalho sob os meus pés quando me mexo, imaginando que afugento famílias inteiras de ratos sob o peso do meu corpo que se desloca. Por vezes chove. E quando chove sento-me na poltrona para o jardim cheirando o ruído imenso das gordas gotas de chuva sobre as pétalas de rosas mortas faz muito e que não me apetece cortar. Penso em vermelho, sinto a matéria da cor. Vermelho? Vermelho, Vermeer, vergasta. Um, dois e três: Santíssima Trindade num mar de mortos em nome da fé. Vermelho é cortar os pulsos. Ainda. Vermelho é o sinal aceso sobre a porta de desembarque quando aterro em Lisboa. Perigo. Portugal: vermelho é sair para depois regressar aqui. A hora depois do sol se pôr numa tarde límpida de verão de um lugar qualquer. Coral, maçãs, lacre. Sinal de trânsito fechado. Cor do vinho tinto nas palavras de quem opta por viver a vida em negação: vin rouge, sangue de Cristo. Vermelho é o sangue.

Azul. Sinto com frequência que vivo numa casa demasiado vazia. Não lembro nunca onde deixei nada aqui, e é sempre azul o eco que me responde quando coloco as questões em voz alta. Frio. Imensidão e silêncio. Quem disse que a neve é branca? Quem já a provou sabe que é azul e amarga. Mar por efeito de óptica, vestes de filhos-da-puta que gostam de combinar com uma gravata vermelha, ou laranja, ou outra cor qualquer. Digo azul, e o eco da casa vazia devolve-mo estropiado para que eu o sepulte. Perdoem-me não chorar: partirmos vivos para regressar em caixas.  A pele de alguém ao fim de alguns dias depois de se lhe demonstrar o nosso amor com um murro. Cor do remorso. Azul de um qualquer objecto de vidro que depois de partido teima em continuar azul: em criança imaginava que após a morte a cor fugia das coisas.  Céu imenso sobre mim. Às vezes pesa pela falta de coragem demonstrada ao falhar em sustê-lo. Calo-me. Azul é o que fica por dizer.

Celso Rosa

Lisboa, 22 de Junho de 2014. Fotografia: República Checa, Primavera de 2011.